sexta-feira, 12 de junho de 2020

O Sexto Encontro

Tereza era do tipo de pessoa que se impressionava muito com as coisas, no entanto, de uns tempos para cá, desde o encontro com o misterioso passageiro do ônibus, as coisas foram tomando uma forma normal, e ela própria se espantava de tal coisa. Até mesmo o encontro com a garotinha no parque, apesar de lhe ter espantado a principio, depois lhe pareceu normal. Afinal, a vida não era assim mesmo, cheio de surpresas? Uma hora você esta aqui fazendo mil coisas e do nada estas coisas são removidas e você passa a estar em outro lugar, em outro tipo de situação. Aliás por falar em situações, repentinamente Tereza foi tomada por uma forte determinação, pegou o celular e ligou para seu namorado marcando um encontro para aquela tarde!
Foi para casa, abriu o guarda-roupas para escolher a roupa do encontro, mais estranhamente, nada lhe satisfazia, pensou e pensou: o encontro será em um shopping porque não comprar algo novo, bem que estou merecendo, pegou a bolsa e saiu com a roupa do corpo.
Descidiu que iria de trêm, afinal sua casa era a alguns quarteirões da estação, e sábado o movimento era bem pequeno. Chegando na estação sentou no banco na espera do próximo coletivo. Se sentia um tanto quanto estranha, parecia aqueles mutantes dos filmes, outro ataque de risos a acometeu, e as pessoas em sua volta pararam para fita-la. Estranhamente estava com seus sentidos muito aguçados, conseguia ouvir as conversas paralelas, sentir o cheiro do queijo de um croassant da padaria próxima a estação, as cores das coisas estavam muito mais vivídas. O que seria aquilo tudo???
Entrou no trêm, recostou a cabeça no vidro, e enquanto as pessoas da plataforma passavam rapidamente, acabou por adormecer, e uma voz...
__Lucia, pare de mentir para si mesma e desperta, à vivida vida te espera no limiar da existência.
__É agora que lhe faço a pergunta???
__Sim Lucia, bem agora!!!
__Você me disse que não era daqui. E de onde eu sou???
__ Você é uma pessoa do Reino!!! Mais escolheu retornar porque acredita ainda nas pessoas. Mais os Mestres já fizeram esse trabalho árduo. E você mesmo assim se candidatou...
__ Me candidatei a que???
__ Como assim ao que??? Ao resgaste!!! Observe todos, estão ainda dormindo, acreditam que realmente este é o mundo verdadeiro, mais não é. Poucas pessoas sabem disso, você é uma delas. Mais você também se esqueceu. Foi até o Mnemósine e tomou uma grande quantidade de sua água, para quando sorvesse as aguas λήθη, nada lhe aconteceria, no entanto, você sofreu uma espécie de dormência agora transita entre as duas dimensões. Seu despertar é bem lento, já devia ter acordado a muito tempo.
__ Se este não é o mundo verdadeiro, onde eu estou???
__ Próxima estação, Tatuapé
__Como???
Seus olhos foram abrindo lentamente e quando se deu conta, deveria descer na próxima estação. Levantou-se rapidamente, arrumou os cabelos com as mãos. Aguardou a parada na estação e desceu. Enquanto subia a escada rolante, foi meditando seu sonho, assimilando, colhendo as partes mais importantes
Ao entrar no shopping a primeira loja que procurou foi uma de bolsas, procurou uma mediana, de cor preta, depois sentou em um dos bancos do shopping e tirou as coisas mais importantes que tinha na bolsa e passou para a outra: documentos, o tablet, absorvente. E jogou fora a bolsa antiga com a foto do namorado dentro dela, alguns poemas que ele tinha feito, e um monte de coisas do passado...
Em frente ao banco tinha um salão de beleza, entrou, não estava tão cheio, tinha uma garota sentanda com as mãos no queixo
__ O que foi meu bem???
__ Nada não, é que sou novata aqui então não me deixam fazer nada, apenas observar e observar, isso vai me entediando, entende???
__ Ah mais se não colocar as mãos a obra nunca vai conseguir nada, não é??? (deu uma piscadela à garota)
__Sim claro! (um enorme sorriso saiu de sua face)
__Qual seu nome meu bem???
__ Julia
__ Pois bem Julia, hoje é a estreia de uma grande profissional, não se decepcione heim???
__ E o que você vai querer
__ Me surpreenda!!!
A dona do salão olhou meio de lado, mais como viu que elas estavam se entendendo não falou nada, afinal o importante era o dinheiro no caixa.
Julia pegou a tesoura e imaginou o que cairiam bem para o desenho do rosto de Tereza, então passou a ferramenta em seus cabelos com movimentos ágeis e precisos, a coisa levou em torno de 30 a 40 minutos. Seus cabelos eram castanhos por natureza, então ela deixou sobre eles uma tintura preta que deu um tom forte com brilho. Juliu olhou Tereza pelo reflexo no espelho, tinha um sorriso imenso, e lhe perguntou:
__ Posso fazer a Make também?
__ Claro meu anjo, hoje é seu dia...
Julia passou mais alguns minutos entre tons pretos e cinzas quando finalmente terminou.
__ Tereza, acabei, espero que goste
Ela se fitou no espelho. Foi tomada por um grande espanto. A pessoa ali no espelho não era ela. Estava totalmente exótica, meio gótica, meio bruxa, ou porque não os dois...
__ Está maravilhoso Julia, mês que vem vou querer repetir (risos), me veja a conta por favor que as horas voam como uma bruxa (mais risos, nem sabia porque dissera aquilo)
Pagou o valor do serviço, deu uma gorjeta polpuda para a garotinha e na saída, saiu com essa?
__ Dona trate muito bem essa garota, pois ela é um grande talento. E um dia será dona deste salão
Virou as costas e saiu, sem poder ver a cara de horror da madame do estabelecimento. Foi em direção a uma loja de roupas e escolheu um estilo que cabia com seu novo cabelo, make e bolsa. Pagou e entrou no banheiro do shopping para se trocar, separou as roupas antigas e colocou nas sacolas da loja, na saída deixaria com algumas destas pessoas que ficam pedindo caridade ali pelas redondezas. Parou em frente ao espelho do banheiro e fez uma foto, botou no seu status e no seu instagram. Enquanto colocava o celular na bolsa sua nova foto explodia de visualizações.
Se dirigiu até a praça de alimentações onde iria encontrar seu namorado, ele já a guardava lá à horas. E todo enfezadinho já foi para a agressividade
__ Bonito heim, estou a horas aqui lhe aguardando
__ Bonito é sua educação (risos)
Ele parou por uns minutos e ficou analisando ela...
__ Uau heim, você está ótima, o que aconteceu
__ Liberdade, simplesmente!!!
__ Como assim???
__ Vim aqui apenas pedir minha demissão como sua escrava (risos)
__ Esta saindo com outro? Olha que se souber de algo lhe mato viu (estava furioso)
__ Você não pode matar o que não é seu, simplesmente isso
E assim como fizera na loja, virou as costas e foi embora. Se sentia extremamente forte e ousada!!! Só conseguia ouvir ao longe seus gritos selvagens (também não pode ver, que ele fez menção de lhe atacar por traz, mais alguns seguranças que estava por perto o contiveram e seguraram ele até ela sair do shopping. Agora Tereza tinha ativado sem saber seu modo de alto defesa e ninguém, mais ninguém no mundo teria o poder de lhe fazer mal algum. O alto escalão estava atento, fora convocado para sua defesa e os exércitos invisíveis estavam a sua disposição...

quarta-feira, 13 de maio de 2020

O Quinto Encontro

Como decidira tirar o dia para si mesma resolveu então fazer algo diferente e foi até um museu de antiguidades. Passou bem dizer o resto do dia por lá, observando as obras e imaginando como as pessoas viviam em tempos passados, imaginou-se até, sendo uma destas pessoas, quando enfim se cansou e resolveu dar por encerrada aquela excursão.
Ao chegar em casa Tereza tomou um banho prolongado, deixando apenas a água quente do chuveiro cair sobre sua cabeça e escorrer pelo seu corpo, fazendo uma meditação de alguns minutos, tentando esvaziar sua cabeça de tudo aquilo. Se enrolou na toalha e foi para seu quarto. Mirou-se no espelho e disse: Faça a pergunta!!! Deu um largo sorriso, pegou seu moletom na gaveta do guarda-roupas e se vestiu. Desceu as escadas e sentou-se no sofá, como estava muito frio colocou um fino cobertor sobre si. Estava sem um pingo de fome, pegou o tablete para ler o livro que havia comprado no dia anterior.
Na capa o símbolo estranho, leu a introdução:
                "A 'Cruz da Serpente', 'Cruz de Flamel', ou ainda apenas 'Flamel', é um símbolo místico alquímico descrito como uma cruz com uma cobra ou serpente envolvida, bem como asas destacadas e uma coroa acima delas.
             Esse símbolo assemelha-se e compartilha origens comuns com muitos outros símbolos antigos (com os quais é às vezes confundido), como a ‘Haste de Asclépio’, o antigo símbolo grego da medicina, o “Caduceu”, antigo símbolo grego relacionado ao deus Hermes, e o ‘Nehushtan’, um símbolo hebreu que significa a vitória sobre o diabo. Ele é também um dos símbolos atribuídos ao alquimista francês Nicolas Flamel. A cruz aparece nas ilustrações de Flamel e muitos dizem simbolizar a relação dele com a ‘Pedra Filosofal’, um artefato cheio de mistérios e que, segundo a crença, levaria seu possuidor a ter uma vida muito longa.”
Tereza então fitou a imagem daquele símbolo no livro e a observar todos os seus detalhes, e uma forte sonolência se apoderou dela, acordou assustada, pegou o tablete e viu que já era nove horas da manhã. Entrou em pânico, estava atrasadíssima para o trabalho. Subiu as escadas praticamente saltando os degraus, chegou ao andar superior ofegante, tomou folego e refletiu. Foi a seu quarto, pegou o celular e observou ele por instantes. Deu uma grande e sonora gargalhada. Que estupida eu sou!!! Hoje é sábado... Trocou de roupa, pegou algum dinheiro e foi até a padaria para comprar algo para o café da manhã
No caminho até a padaria resolveu passar por um parque que havia em seu bairro. O sol já despontava firme, forte e quente, respirou aquele a ar da manhã, o cheiro das árvores lhe agradava imensamente. Sentou em um banco da praça e ficou apreciando os pássaros cantando.
__Ei Lucia
Tereza olhou para o lado e viu uma garotinha que deveria ter, mais ou menos uns nove anos de idade
__Olá, eu sou Tereza
__ Não é não!!! Você é Lucia, me lembro bem de você. Você não é daqui!!!
Tereza sorriu
__Ok!!! E qual seu nome???
__Me chamo Amanda. Lucia você devia parar de mentir viu!!!
Tereza ficou confusa, ou será que confusa estava a garotinha. Ela tinha um olhar sério, sisudo
__Como assim???
__Você sempre teve este defeito Lucia, de mentir para si mesma. E isso lhe faz muito mal
__Garotinha, você é de onde??? Onde estão seus pais???
Tereza se lembrou que tinha umas balas na bolsa e abriu para pega-las para a garotinha, fazia isso enquanto falava. Quando se dirigiu a garotinha, ela não estava mais lá!!! Seu coração disparou, levantou-se e olhava para todos os lados, tentando achar aquela menina, que ainda pouco estava ali conversando com ela, mas nada!!! O parque todo foi tomado por um estranho silêncio, os passarinhos não mais cantavam, o vento não mais crispava nas folhas das árvores. Tereza saiu do parque a passos rápidos, a cabeça latejava. Melhor seria dirigir-se a padaria, ainda estava em jejum, comprar algo para comer, e assimilar com calma mais aquele evento

sexta-feira, 17 de abril de 2020

O Quarto Encontro

Ao sair do consultório sentia-se extremamente leve e calma, já até esquecera o número do andar e da sala. Entrou no elevador com um sorriso imenso. Olhou seu reflexo no espelho e disse: Qual a sua pergunta???
Caiu em uma crise de risos incontrolável, as pessoas que iam entrando olhavam para ela de uma forma estranha, quase bizarra, o que somente lhe alimentava mais ainda os risos. Quando o elevador chegou ao térreo esperou todos descerem, se dirigiu a recepção e devolveu o crachá de visitante, deu um imenso sorriso a recepcionista e lhe disse:
__Querida, tenha uma excelente semana!!!
__Obrigada...
Assim que pôs os pés na rua a recepcionista comentou com segurança:
__Esse psicólogo ai do 13 deve ser bom mesmo (risos). Todas suas pacientes saem rindo muito de lá. Acho que vou marcar uma consulta para mim também.
O segurança lhe respondeu com um sorriso e se dirigiu a porta para observar a rua. Lá fora a vida seguia como sempre em sua rotina incessante, de pessoas indo e vindo, sempre com pressa, como se tivessem sempre perdido algo e nunca encontrando. O barulho e a poluição formavam um ambiente de tormenta, de caos. Menos para algumas pessoas que internamente viviam em um mundo particular de paz absoluta. Neste mundo se encontrava agora Tereza, que se dirigiu a um ponto de ônibus para pegar o coletivo e ir para o serviço, quando ouviu alguém sussurrar
__Hei moça...
Olhou para trás, era um mendigo com a mão estendida. Observou os arredores, abriu sua bolsa e pegou algumas moedas que colocou na mão do mendigo
__Deus lhe abençoe moça
Ela se limitou a fazer um gesto positivo com a cabeço
__Moça, faça a sua pergunta!!!
Tereza ficou imóvel!!! Um arrepio lhe subiu pelo corpo e os pelos ficaram em pé, seu ônibus chegou, parou, partiu e ela nem se deu conta. Não sabia se olhava novamente para o mendigo, ou simplesmente lhe ignorava e seguia a vida. Aquilo não podia estar acontecendo, devia ser algum tipo de coincidência é claro. Olhou lentamente para o mendigo, que agora lhe sorria com os poucos dentes que tinha na boca
__Moça, não existem coincidências. Isso são justificativas para pessoas de pouca fé!!!
__Você deve estar com fome, não é??? Posso lhe pagar um lanche???
__Claro moça. Agradeço lhe e muito.
__Quando cheguei hoje cedo passei em uma lanchonete na esquina desta rua, vamos até lá.
O mendigo se levantou e seguiu a moça até a lanchonete, ao chegar no estabelecimento a moça foi entrando, no entanto o mendigo foi barrado por um funcionário que varria o chão.
__Aqui você não entra!!!
__Rapaz, ele esta comigo... É meu primo
O funcionário analisou os dois, balançou a cabeça negativamente e respondeu
__Por favor vão até o fundo, tem uma mesa próxima ao banheiro, fiquem por lá que já irei atender vocês
__Obrigada
Tereza entrou com o mendigo e sentaram-se a mesa
__Quer dizer que agora eu sou seu primo? (risos)
__Melhor assim. Evita-se muitas perguntas. Aliás qual seu nome?
__Me chamam Jesus
Tereza olhou com estranhecimento
__Ok Jesus, porque você fez aquela pergunta para mim?
__Moça, me perdoe tá, eu sou um homem estranho, as vezes falo o que sinto vontade, simplesmente isso, ou quando não falo eu escrevo. Jesus então abriu um bolsa que tinha pendurada no pescoço e tirou um monte de folhas escritas.
__Veja você mesma
Tereza pegou as folhas e olhou-as uma a uma. Estava em sua maioria muitos sujas e encardias, algumas até com manchas de gordura. Uma das folhas lhe chamou a atenção, tinha um título: Carta ao Alquimista.
__Jesus, posso ficar com esta???
__Claro moça.
__Obrigada, aliás, me chamo Tereza
__Tá certo Tereza
__Bom Quanto a pergunta. O que é o Retorno?
__Simples, quando se vai, tem que voltar, isso é um retorno
Tereza olhou boquiaberta, pois não esperava uma resposta assim tão rápida e sem gaguejar
__Perfeito, no entanto, o Retorno de onde?
__Tereza infelizmente não tenho todas as respostas para suas perguntas. As vezes meu cérebro trabalha rápido e já tenho algo em mente para disparar. As vezes tenho uns vazio e nem me lembro quem sou, nem onde estou. As vezes... As coisas me vem em sonhos confusos, às vezes acho que vou enlouquecer.
Jesus colocou as mão sobre o rosto e começou a chorar copiosamente. Tereza sentiu uma imensa vontade de abraçar aquele ser humano, e foi o que fez. Foi então que se deu um fato. Ela sentiu algo sair de dentro de si e na sequência recebeu algo em troca. Ela não sentia o fétido odor daquele homem, o abraço foi algo despretensioso e inimaginável. Ela se sentia outra pessoa, a Tereza do dia seguinte jamais teria conseguido fazer aquele gesto. Quando Jesus levantou a cabeça estava radiante. Tereza lhe sorriu de volta e entregou nas mãos daquele homem a suposta receita do Psicologo.
__Fica para você Jesus, é uma receita médica. E toda vez que tiveres duvidas a use, e não chores mais, pois és abençoado. Quando não precisares mais desta receita. Passa ela adiante, pois com certeza alguém vai precisar.
Novamente aquilo... Estava falando palavras que não eram suas. De onde saiu tudo aquilo!!!
No fim daquela manhã, mais dois desconhecidos estavam felizes. Sairam da lanchonete, Jesus foi para direita e Tereza para esquerda, em direção ao ponto de ônibus, estava decidida a ir para casa e encerrar aquele dia. Acenou para Jesus que se perdeu na multidão, ao retornar a atenção viu que seu ônibus acabar de parar, sem nem mesmo ela dar o sinal. Subiu as escadas, cumprimentou o motorista, estava leve. Foi ao fundo do coletivo e sentou-se, abriu a bolsa e sacou o texto de Jesus, leu e passou a refletir:

“Carta ao Alquimista

Acorda criatura!
E desperta o Deus que a em ti!
A centelha adormecida
Que mora contigo debaixo da telha
Urge que largues o material e carnal
Para abrir-te os olhos ao que esta mais além
Teu pai te chama, ti reclama, e tu não ouves!
Abre os ouvidos e ouve
O que é inaudível ao ser comum...
Escutas com dom da alma!
Olhe com olhos sem cobiça
E larga de vez o que te atiça
Que a bem-aventurança está em ti!”

quarta-feira, 11 de março de 2020

O Terceiro Encontro

Tereza acordou cedo, pegou a primeira condução e se dirigiu ao psicólogo no centro da cidade. 
Ao chegar, confirmou o número do endereço e se dirigiu à recepção.
__Por favor, Dr. Alberto...
__Sua identidade por favor...
A garota fez as devidas anotações no sistema, devolveu-lhe o documento e disse:
__Décimo Terceiro andar, sala 13!
Tereza olhou horrorizada para a moça, que ficou sem entender nada...
Por conta de algumas crendices e manias que tem, o que inclui aversão pelo número 13, Tereza ficou alguns minutos olhando para o elevador. Pensando se deveria subir ou não, quando de repente, a porta se abriu e a ela pareceu ser um portal para um submundo. 
Estava com muito medo, mas entrou. 
À medida que o elevador ia subindo, Tereza começou a sentir falta de ar; a suar muito, até sentir as pernas amolecerem e tudo ficar escuro.
Quando acordou, estava deitada em um confortável sofá, com uma forte luz sobre ela e viu um lindo rapaz lhe sorrindo... 
Então pensou:
-- Se isto for outro sonho, não quero acordar agora!!!
O rapaz então lhe disse:
__Poxa você tem um sono bastante pesado! (risos)
__Desculpe-me, onde estou?
__Está bem onde precisava estar! (mais risos) No consultório do Dr. Alberto. Eu liguei na recepção e me informaram que você estava subindo para cá. Então achei melhor manter você por aqui alguns minutos, caso não acordasse iria chamar a emergência. Mas pelo visto você está em ótima forma. E diante deste imprevisto, cancelei todas as outras consultas da manhã, assim, esse período vai ser todinho seu! (mais risos)
__Mas onde está o Dr. Alberto???
__Como assim? Eu sou o Dr. Alberto!
__Ah sim... Pensava que fosse bem mais velho, sei lá. Desculpe-me.
__Imagina, não é só você que pensa dessa forma. Então mocinha, já que está deitada, vamos ao trabalho. Conte-me um pouco de sua infância.
Tereza olhou entediada... O que tinha aquilo a ver com sua infância??? 
Queria ir direto ao problema. Mas, de qualquer forma foi lhe contando o pouco que lembrava. Que tinha perdido o pai ainda pequena, e fora criada por sua mãe, com muita dificuldade, com a ajuda de seu avô aposentado. A primeira análise  demorou em torno de duas horas e achou incrível ainda se lembrar de tantas coisas, boas e más, que estavam contidas dentro de si e se sentiu bem mais aliviada no final.
__Bom mocinha, por hoje é só.
__Mas eu gostaria de falar sobre o meu real problema... e talvez, você pudesse me receitar algum remédio...
__Veja bem, minha forma de trabalho é um pouco diferente. Então não gosto de apressar as coisas. Seria como ler um livro da metade para frente. E sinceramente, remédios não funcionam em todos os casos. Vá para casa, relaxe, faça algo que sempre quis fazer, mas nunca teve determinação. E se os problemas persistirem marque outra consulta, estou sempre à sua disposição a qualquer hora do dia.
Pegou seu bloco escreveu algo e lhe deu:
__Está aqui sua receita.
Ela pegou e leu: Faça-se feliz! 
Olhou para ele com um sorriso sincero que foi retribuído prontamente.
__À propósito: Psicólogos não podem receitar medicamentos, caso precise, e acredite ser o seu caso, faço um encaminhamento para um bom psiquiatra.
__Obrigada!!!

quinta-feira, 20 de fevereiro de 2020

O Segundo Encontro

Ela voltou para casa, e não sai de sua cabeça o encontro que tivera hoje!!!
Nos dias que se seguiram tentou pegar a mesma condução, no mesmo lugar, no mesmo horário, sem sucesso
Depois tentou pegar em horários diferentes, e se pegou a procurar aquele personagem enquanto estava no ponto de ônibus. Chegou também a olhar pela janela, para ver se não o veria pela calçada. Pensou estar ficando louca, se tudo aquilo não fora apenas um sonho. Então tentou voltar a sua rotina normal e esquecer tudo aquilo. Afinal que importância tinha tudo aquilo? No resumo, se nasce, vive e morre. Olhou seu reflexo na janela do ônibus, sorriu para si mesma e cochilou profundamente...
Foi acordada por uma mão que lhe tocava de leve o ombro, abriu os olhos vagarosamente e quando conseguiu formar a imagem da pessoa que estava a seu lado, tomou um grande susto e chegou a pular no acento. Não, aquilo não era possível, e não estava acontecendo. Olhou para janela e o mundo continuava lá fora, normal, impassível. Voltou o olhar novamente para a pessoa, na esperança de ela ter sumido, ou ter visto errado. Mais não ela estava lá, e era Ela mesma ou extremamente parecida com Ela. Sentiu como se estivesse em um filme de horror, sentiu subitamente lhe faltar o ar
__Faça a pergunta???
Como assim, faça a pergunta!!! Me internem logo, isso sim...
De repente ouve um estrondo, um impacto e seu corpo foi arremessado para frente. Só teve tempo de proteger o rosto. A pessoa que estava ao seu lado tentou segurar seu braço, mais foi inevitável, um leve impacto com o banco da frente. O rapaz ao seu lado perguntou assustado.
__Você esta bem???
__Sim... Acho que foi mais o susto. Masss, e a mulher que estava neste acento antes?
__Não, não, aqui estava vago e eu sentei, mas já faz algum tempo. Você estava em um sono bastante pesado. Ai de repente o ônibus freio bruscamente, foi isso.
__A tá...
Olhou pela janela e tinha passado já uns dois ou três pontos de onde deveria ter descido, pediu licença ao rapaz e desceu do ônibus
__Devo estar ficando louca mesma
Sentia uma leve dor de cabeça devido a pancada, ficou tentando digerir aquele sonho, ou seja lá ou que foi aquilo. Um sonho dentro de um sonho, parecia ter sido isso
Chegou em casa ligou o computador e fez uma pesquisa sobre terapeutas, iria marcar um o mais breve possível, resolveu fazer outra pesquisa, agora sobre sonhos,
“O sonho é uma experiência que possui significados distintos se for ampliado um debate que envolva religião, ciência e cultura. Para a ciência, é uma experiência de imaginação do inconsciente durante nosso período de sono. Para Freud, os sonhos noturnos são gerados, na busca pela realização de um desejo reprimido.”
Religião??? Não tinha fé em nenhuma, tão pouco acreditava existir um Deus. A ciência pelo menos mostrava algo palpável. Já a cultura havia herdado de família o catolicismo quando criança, por imposição dos pais. Se levasse em conta o lado cientifico da coisa, isso seria tudo fruto de sua imaginação. Desistiu então de marcar o terapeuta. Navegou alguns sites de editora procurou um livro interessante e clicou em um que lhe chamou a atenção, pois havia o mesmo símbolo que existia na corrente do homem que lhe abordara no ônibus. Fez o pagamento online e baixou o livro sem muitos problemas, mais tarde enviaria o mesmo para seu tablete e iniciaria a leitura. Desligou o computador e foi a cozinha preparar algo para comer.
Fez sua refeição e já era um tanto quanto tarde e foi se deitar
Quando ouviu uma voz lhe chamando... Tereza...
Abriu os olhos a apurou os ouvidos, novamente, Tereza....
A voz parecia vir da sala
Levantou-se silenciosamente. E ela estava lá, sentada no sofá
__Tereza, não tenha medo...
Respirou forte, e decidida encaminhou-se ao sofá e sentou-se a seu lado
__Tereza, faça a pergunta...
Desta vez ela não hesitou, fez a pergunta como quem estivesse com a respiração presa e fosse liberta
__Para onde nos leva tudo isso???
__Para o Grande Retorno, para o Grande Dia!!!
__Retorno para onde???
Sua imagem então se evaporou e subiu para os ares...
De repente ela acordou e estava sentada no sofá
As dúvidas lhe invadiram novamente. Seria aquilo um sonho??? Seria aquilo real??? Seria loucura de sua mente??? Se tornará sonambula agora???
Ela estava passando por um momento muito turbulento de sua vida. A perda de sua mãe e filha a haviam deixado sozinha e não encontrava propósito para aquilo. Seu trabalho era muito estressante e estava a uns dois anos em um relacionamento muito desgastante, ciúmes, traição, agressão psicológica, e agora aquilo. 
Foi ao computador novamente, buscou um terapeuta e marcou uma consulta para o dia seguinte.

sexta-feira, 10 de janeiro de 2020

O Primeiro Encontro (continuação)

Ele sorriu e falou novamente
__Hei tente relaxar, é apenas uma pergunta...
Ela continuou muda, a esta altura já suava frio...
__Funciona assim, você faz a pergunta. Se eu souber eu respondo. Se não souber terá que aguardar o próximo enviado!!!
Como assim??? Próximo enviado
Olhou para os lados, para ter certeza de que não estava participando de uma destas pegadinhas de televisão
Que loucura, parecia um daqueles filmes em que uma pessoa vem do futuro para lhe contar algo que iria lhe acontecer. E quase sempre isso não é bom, porque nos filmes o mundo sempre acaba sendo destruído em uma cena apocalíptica...
Ele não retirava os olhos dela.
Seria louco???
No entanto algo incrível aconteceu,
Assim do nada, ela se sentiu extremamente relaxada e em paz.
Se sentiu segura e dominante da situação...
Então algo surgiu de seu ímpeto e ela falou.
Mais foi estranho porque não era bem ela que falava, mais sim seu interior
__Qual o sentido da vida???
__A vida é feita para ser vivida, com ou sem complicações. Isso vai depender da escolha que você fizer. A vida é um aprendizado onde há diversas lições, entre elas conquistar e perder. A conquista pode ser fácil ou difícil, mais a perda com certeza será muito mais difícil, uma lição dura a ser aprendida. A vida é muito mais do que o dia-a-dia. Muitas pessoas não percebem, mais estão presas a um círculo e não conseguem sair. Mais o mais duro é que se acostumam com isso e acham normal. A vida é um dom, é um presente. Foi dada, como uma oportunidade. E todo presente gera um certo tipo de responsabilidade.
Ela ouviu tudo silenciosamente, refletiu e perguntou novamente:
__Mais porque foi me dada a chance de perguntar??? Porque você está aqui e quem é você??? E aonde nos leva tudo isso???
__Todos tem a chance de perguntar, mais poucos tem coragem ou discernimento. Eu estou aqui porque é preciso estar. Todo encontro é algo concebido, nada na vida é por acaso. Nem uma folha de arvore cai em vão, ela tem sua singela missão, mesmo que não saibamos o porquê disso. Hoje eu respondo, amanhã será sua vez. Quanto a última pergunta, para saber a resposta existem dois caminhos...
Ela olhou para ele tensa, pensou: “Nossa gastei todas minhas perguntas e vou ficar sem poder fazer mais uma. Como vou saber os caminhos...”
__Você pode aguardar o próximo encontro ou pode utilizar-se da busca. A primeira forma é mais demorada e agonizante, muitos desistem esperando o encontro ou se esquecem por completo, então quem esquece acaba sendo esquecido, até sua memória se reavivar novamente. A segunda forma é árdua, mais compensadora, pois quem busca o conhecimento, ele generosamente lhe vem ao encontro. Agora que sabe pode fazer suas decisões!!! Por favor dê o sinal, vou descer no próximo ponto...
Ela lhe deu passagem, ele se encaminhou para porta do fundo do ônibus
Ela olhou para trás aflita e gritou:
__Hei, me dê um telefone o qual eu possa te ligar
O ônibus parou, abriu a porta, ele desceu e se perdeu na multidão...

terça-feira, 7 de janeiro de 2020

O Primeiro Encontro

Ela estava sentada no banco do corredor, no coletivo,
Ele passou a catraca do ônibus já observando o fundo,
Se encaminhou próximo a ela e com um sinal dos olhos
Solicitou o lugar vago junto a janela, ela cedeu passagem.
Ele sentou-se, abriu a mochila, pegou uma revista e começou a ler
Era um tratado sobre clima global!
Ela esticou o olho e tentou ler algo...
Ele encerrou a leitura, guardou a revista
E sacou um livro, parecia bem antigo...
O título era, Alquimia da Alma.
Ela tentou ler novamente, mas sem sucesso,
Pois o idioma não lhe era reconhecido
Ela meio que analisava Ele discretamente...
No livro haviam muitas figuras, símbolos diversos,
Se lembrava de ter visto um deles, mais não sabia onde.
Ele estava todo vestido de preto,
E com óculos ligeiramente escuro,
Apesar de ainda ser inverno...
Tinha uma corrente com uma medalha estranha no pescoço,
Que se parecia com um crucifixo, mais não era!!!
Pois tinha uma serpente enrolada.
Quando se deu conta, estava fascinada por aquela figura,
Que se tornará, não sabe o por qual razão, atraente.
Terminada a leitura, ele guardou o livro.
Olhou em sua direção,
Os olhos dele meio que invadiu seu ser,
Sentiu um arrepio profundo,
Que nunca sentira antes!!!
Um misto de medo e êxtase...
__Qual é sua pergunta???
Ela ficou congelada.
A voz simplesmente não saia...