domingo, 12 de dezembro de 2021

O Décimo Sexto Encontro

Lá estava novamente Tereza enfrentando o mundo e todos

Era incrível como andar de condução por são Paulo era um turbilhão. E naquele dia ela praticamente iria atravessar a metade da cidade de São Paulo. Pegou o metrô na estação República, o povo já começava a se aglomerar pois eram 18 horas, o horário que muita gente saia do trabalho, e algumas outras se encaminhavam para as faculdades locais espalhadas pela imensa metrópole, com o quase fim da pandemia muitos iam voltando as suas atividades normais. Chegando a estação Sé a movimentação de ida e vinda eram constantes, Tereza teria que descer na estação do Brás, fazer uma breve caminhada até a plataforma de trens e pegar um que fosse até o bairro de São Miguel Paulista. Durante seu percurso até a plataforma foi meditando! Nem se deu conta, quando viu já estava no trem e este em movimento. Ela estava bem no meio entre as duas portas do vagão, quando subitamente ele parou na estação Tatuapé e uma avalanche veio em direção ao seu corpo jogando ela na porta do outro lado. Muita gritaria, muito riso (era uma sexta-feira). Um garoto ficou bem de frente a ela pressionando seu corpo. Ele lhe sorriu com os olhos (devia ter uns quinze anos) e falou com a voz abafada pela mascara

__Perdão moça, pelo mal jeito, mais é a Polaridade quem manda aqui (risos abafados)

Tereza não respondeu, mais seus olhos giraram para cima no maior tédio do mundo

__Esse negócio de Polaridade foi um lance que eu li num livro de alquimia, quando estava fazendo um trabalho de escola. Doiderá né esse lance de alquimia. Mais tem muita gente que não acredita. A senhora acredita nisso??? Eu acredito que...

Tereza arregalou os olhos imediatamente e interrompeu o garoto

__Esse lance de Polaridade é uma Lei Alquímica

__Aeeeee já vi que a senhora manja da coisa (risos)

__Primeiro pare de me chamar de senhora que tenho idade para ser sua irmã

__Tá bom mana, manda lá!!!

__Você é mesmo um garoto incorrigível, mais me fale sobre essa Lei da Polaridade

__Calma lá!!! E onde fica a regra básica da Alquimia???

__Qual regra

__Ai ai ai você quer ser uma grande alquimista e nem sabe a regra básica. Para se ter algo é necessário dar algo em troca, no mesmo valor e equivalência.

__Essa agora!!! E o que eu lhe posso dar em troca???

__ A Pedra Mãe...

__Pedra Mãe??? E onde lá eu tenho isso???

__Ah está aí no seu pescoço

__Uhum, mais essa foi minha mãe que me deu, por isso é Pedra Mãe?

O garoto se riu muito

__Não, não ela é a Pedra Mãe, porque foi gerada pela Mãe Terra, quando o grande Pai lhe abraçou e lhe fertilizou, então ela deu à luz a várias Pedras, que receberam o nome de Pedra Mãe. Entendeu???

__Entendi, mais para que serve uma Pedra Mãe???

__Não serve para nada, mais serve para tudo. Você só vai dar valor a sua Pedra Mãe quando perder ela. Eu por exemplo tinha a minha e não tive o devido cuidado com ela e perdi ela. Depois eu tive consciência da sua necessidade e passei a buscar ela por todo canto. Até que você me apareceu com ela novamente.

__Rapazinho você é muito engraçado, sabia? Pois bem, como eu não me apego a coisas materiais, vou lhe dar ela, mais cuide bem dela, talvez um dia eu venha buscar ela novamente com você

Tereza tirou o cordão com a pedra de seu pescoço e colocou no rapazinho

__Agora me conte sobre a Lei

__É assim, tudo que existe no mundo tem o seu oposto, o seu igual ou desigual, sendo na verdade a mesma coisa na natureza, mais em graus diferentes, pois são extremos de um mesmo tipo de escala. Por exemplo, o calor e o frio são uma mesma entidade, só que em posições opostos, imagine que se você for para um extremo vai ficar cada vez mais frio e se for por outro extremo vai ficar muito quente, assim também é o amor e o ódio, o bem e o mal. Sempre que você entende os polos pode manter seu equilíbrio, ficando no meio termo.

__Como assim???

__Se você não quer morrer congelada e nem torrada que fique no meio (risos). O mesmo vale para o amor e o ódio. Se você amar tanto, tanto, tanto, corre o risco de isso virar um ódio incontrolável, até mesmo uma obsessão. Da forma de que, muitas vezes quem odeia é porque ama, nem sempre um amor de homem ou mulher, mais um de incômodo, tipo você de certa forma amaria ser determinada pessoa, e como não consegue acaba por alimentar um ódio irracional sobre aquela mesma pessoa.

Tereza estava impressionada com aquele pequeno. De onde ele extraia tanta sabedoria? Seria um pequeno gênio, ou um notável leitor?

__Parabéns! E você aprendeu isso tudo na biblioteca?

__Sim, pois as coisas todas estão meio que ocultas nos livros (ele deu uma piscadela). Nem tudo isso você vai achar na internet. Desde pequeno meu pai e minha mãe sempre me levaram a biblioteca, e me ensinaram tudo, desde fazer pesquisas e encontrar coisas ocultas na imensidão de livros. Eles são professores de universidade, na verdade são pesquisadores. Legal esse lance né? Esse povo todo aí que fica afundado no celular são zumbis.

Tereza deu uma ligeira olhada em volta e ficou horrorizada. Era verdade o que o garoto dizia, pois 95% dos passageiros estavam fazendo alguma atividade no celular, o restante, ou cochilava ou conversava com a pessoa ao lado.

__Zumbis... (ela repetiu enquanto balançava a cabeça)

__Pois é, eles estão todos dominados que nem conseguem mais se comunica entre si. Muitos não conseguem nem falar (risos). Eu já fui em um encontro de amigos em que não foi trocada conversa nenhuma produtiva. Pois você falava algo, a pessoa te dava uma resposta vazia e continuava afundada digitando. Me deu uma gastura tão grande que levantei e fui embora. Nem se deram conta disso. Mais paciência, pois cada um faz o seu mundo não é mana?

__Você tem razão

__Poxa nosso papo tá bom, mais vou ter que descer na próxima estação. Você poderia me dar algo?

__Mais e a Lei da Troca onde fica?

__É verdade mana (risos)

__Eu quero que você pesquise outra Lei para mim. Eu já tenho quatro: Mentalismo, Correspondência, Vibração e Polaridade.

__Fácil, deixa comigo

__Eu o que você quer?

O Menino corou todinho parecia uma pimenta, baixou a cabeça e começou a coça-la

__Eu quero seu WhatsApp

Tereza não se conteve e riu muito, e alto, de forma que todos olharam para sua direção

__Me de seu celular

O menino lhe entregou e ela digitou seu contato devolvendo-lhe o aparelho em seguida. Ela deu um beijo afetivo em sua face

__Até mais mano, conto com você

__Você se chama Tereza!!! Meu nome Pablo...

Por um breve instante o menino removeu a máscara e lhe deu um largo sorriso. Ela retribuiu da mesma forma. O garoto deu um giro sobre os pés, se misturou na multidão que descia. Tereza iria descer na próxima estação


sexta-feira, 15 de outubro de 2021

O Décimo Quinto Encontro

Tereza estava atônita, parecia que seu cérebro estava em bloqueio. Não conseguia fazer mais nada, nem pintar seus quadros. Estava obcecada em busca das outas Leis, deitada na cama com umas três cobertas, seus olhos miravam o teto branco do quarto, era uma sexta feira fria de agosto, e o desgosto estava em seu semblante, quando de repente o sino da igreja local vibrou, e com ele todo seu corpo, podia-se dizer que até sua alma, foi realmente uma sensação estranha. Levantou-se repentinamente e correu ao banheiro, ligou o chuveiro no mínimo e esperou o ambiente se encher de vapor, tomou um banho lento e reflexivo. Desde que sua mãe se fora, nunca mais havia pisado em uma igreja, não fazia mais sentido para ela, mais porque naquele momento, após ouvir o sino algo moveu-se dentro de si, uma energia, um chamado.

Voltou ao quarto e arrumou-se, montou-se como quem ia determinada a alguma luta, sua roupa preta era tal como uma armadura medieval. Sentia-se como Joana horas antes da batalha. De uns tempo para cá havia pensado muito em Joana e pesquisado sua vida, o quanto ela foi heroica, e o quanto ela fora usada pelo Estado e o Clero, e quanta Joanas não existiam pelo mundo a foram sofrendo inocentemente!!!

Ao colocar os pés na rua sentiu o vento gélido, no entanto seu espirito quente o repeliu de imediato, seguiu decidida pela rua em direção a igreja, ela era antiga ainda nos moldes do império. De baixo fitou a escadaria e sua construção no cimo, era realmente uma visão sugestiva, pois a ponta da igreja tocava as nuvens no céu, e apesar de ser um dia claro de inverno, apenas no topo do santuário existia uma grossa e densa nuvem. Subiu as escadas reflexiva. O que estava fazendo ali??? Era correto aquilo??? Certamente seria expulsa como se fosse uma bruxa medieval!!! Ou o padre riria de sua insanidade e a mandaria embora para casa...

Adentrou ao recinto e admirou as obras de arte, não se podia negar que os santos e imagens eram de muito bom gosto. Para uns trazia paz e alivio, já para outros pânico e tormenta, dependendo de seu estado emotivo, mais para ela o motivo ali era outro, então o ambiente lhe era indiferente. Caminhou lentamente, o silêncio do local era quebrado pelos seus passos, dirigiu-se ao confessionário, era a primeira vez que fazia isso, aquela força interior a movia.

__Padre, me perdoe por tomar o seu tempo!!!

__Não há o porque pedir perdão quanto a isso, pois o tempo é do Pai, ele o preside com sabedoria, quem sou eu para questionar isso

Tereza vislumbrou mentalmente um sorriso do outro lado, sentiu-se bem acolhida...

__É que não estou aqui para confessar meus pecados. Vim em busca de conhecimento!!!

__Enfim uma alma que não está atormentada!!! O que buscas???

__Estou em busca das Leis que regem esse Universo, e ao ouvir o vibrar do sino algo me despertou!!!

__Deus Santo!!! A Lei da Vibração...

Os olhos de Tereza se dilataram instantaneamente e se encheram de lágrimas, estava no caminho certo.

__Venha cá minha filha, seu lugar não é no confessionário

Ambos saíram de seus respectivos lugares e se encontraram frente à frente, O Padre com um imenso sorriso, pegou em suas mãos.

__Eu me lembro de você ainda pequena, Tereza. Sua mãe costumava trazer você nas missas de domingo depois de um tempo sumiu e nunca mais apareceu...

Tereza lhe devolveu o sorriso e apertou forte a mão que lhe segurava

__Me lembro vagamente...

O padre com um aceno de cabeça, convido a lhe seguir, Passaram um extenso corredor, entraram em uma saleta, no canto havia uma porta e logo em seguida uma escada que descia dando acesso ao subterrâneo da igreja.

__Meu nome é Padre Bento, estou nessa igreja logo logo irá fazer uns cem anos (riu alto e o som ecoou por todo o espaço). Quando era ainda moço, gostava de revirar as coisas. E foi assim revirando móveis que encontrei esta porta atrás de um imenso armário, parece até coisa de livros não??? (mais risos).

Ao final da escada o padre acendeu as luzes e uma imensa biblioteca se desvelou, os olhos de Tereza brilharam de alegria e contentamento

__Nem todo padre vive apenas do conhecimento de Roma, muitos são letrados, pesquisadores, e não se contentam e ler apenas alguns livros, se existem milhares por ai. E foi aqui neste mesmo local que descobri uma sabedoria infinita e no meio destes livros que encontrei um que transcrevia as Leis, as quais você procura, no entanto deves guardar segredo sobre este local, pois tenho medo que confisquem estes livros de minha posse, privando-me assim de sua leitura. Depois que eu partir para a grande viagem deixo a revelação para os que vierem e que façam um bom proveito, se assim conseguirem (baixou a cabeça e seu semblante ficou triste)

__Não se entristeça bom padre, pois sei bem como é o ser humano, e comigo seu segredo está bem guardado.

O padre voltou a sorrir, puxou uma cadeira para que ela se sentasse, existia ali uma mesa enorme e bem conservada, de madeira de lei, o padre se afastou um pouco e ficou mirando as imensas estantes. Pegou uma escada e subiu, examinou alguns livros, depois mudou a escada novamente de lugar, fez o mesmo processo por diversas vezes no período de meia hora. Retornou abatido, como um soldado que retorna de uma má campanha.

__Sinto muito Tereza, já fazem anos que me deparei com este livro, e a memória fraca não me permite lembrar onde coloquei ele nessa multidão. Mais se lhe serve de consolo esta Lei da Vibração me veio forte à mente, reza assim: “Nada está parado, tudo se movimenta, tudo vibra. A diferença entre as várias manifestações de matéria, energia, mente e espírito resulta principalmente de taxas variáveis de vibração. Quanto maior a vibração, mais elevada a posição na escala. Tudo, desde o átomo e a molécula até mundos e universos, está em movimento vibratório.” E muitas coisas nos fogem a ótica e nossa limitação. As vezes uma coisa gira tão rapidamente, que a nosso olho pode parecer que está parado, ou mesmo uma coisa que se move tão vagarosamente que na nossa percepção pode ter o mesmo resultado, mais não se engane, nada fica parado. Até nós mesmos quando dormimos, todo o sistema esta em movimento circulando e acredite, até um morto, seu interior esta se movimentando em decomposição para se tornar outra coisa, Terra!!!

Tereza ficou fortemente emocionada, se levantou e começou a aplaudir o Padre, que também se levantou e lhe fez uma reverencia. Ambos se abraçaram, apesar da pandemia que seguia lá fora. Em retribuição Tereza lhe falara sobre os outras Leis que aprendera, e a forma como chegaram até ela. Os dois ficaram por um bom tempo ali naquele local isolado do mundo conversando acerca de diversos assuntos e temas, quando foram despertados pela vibração do sino.

__Já é hora de nos movermos, não podemos ficar parados aqui o dia inteiro não é???

Tereza lhe sorriu e balançou a cabeça afirmativamente. Aquele local era realmente um sonho. Se pudesse retornar ali e ler um por cento de seu conteúdo, seria uma pessoa realizada. Retornaram pelo mesmo caminho que vieram, o padre lhe acompanhou até a porta da igreja.

__Antes que você parta vou lhe fazer um pedido e lhe dar um presente. O pedido é que venha sempre que puder me visitar, o padre muitas vezes é uma pessoa muito solitária, mesmo muitas pessoas frequentando a igreja. O presente é esta chave, venha sempre que quiser pesquisar os livros. A casa de Deus esta sempre aberta para todos, mesmo que poucos a procurem, assim como uma biblioteca. Você será a guardiã deste saber, e quando eu partir, já sabe o que fazer com os livros.

Teresa tomou as chaves em suas mãos, beijou com ternura a mão do padre e lhe deu mais um forte abraço. Em seu ouvido lhe sussurrou um obrigado. E mais uma vez se fez a vibração...

domingo, 13 de junho de 2021

O Décimo Quarto Encontro

Tereza absorveu toda a Lei do Mentalismo, e estava fascinada com aquelas poucas e sábias palavras, também se lembrou da Lei da Vibração. No seu transe fora lhe dito que eram sete as Leis, então procurou incessante mente as outras Leis nos calhamaços de escrito, fez isso diversas vezes, mais foi inútil!!!

O relógio já ia a alguns giros, e lembrou-se que tinha que comprar algo na feira para o almoço, então se trocou rapidamente, pegou uma sacola e botou o pé na rua

O movimento estava normal se não fossem as máscaras nas faces, as alfaces estavam frescas, as frutas maduras, do lado direito José queria enfiar umas mandiocas em um cliente, Tereza corou com esse pensamento e riu alto.

__Você é louco José, toda semana aumenta essa mandioca, não vou levar é nada

__Desculpe me, mais os tempos estão difíceis, se compro mais caro tenho que repassar também, se não quem morre de fome sou eu (mais risos)

Passou pelas hortaliças de Leticia, o aroma estava espetacular, então levou algumas, as laranjas de dona Ângela estavam azedas, deu um sorriso igual por detrás da máscara e seguiu.

Parou na banca de temperos, queria dar um a sua vida, então pegou alguns, diversas cores, seus olhos brilhavam!!!

Dobrou a última barraca e retornava pelo corredor ao lado. Onde havia uma discussão na barraca de roupas, Dona A, reclamava com Dona B que tinha comprado uma roupa com furo mais só tinha visto em casa, Dona B ofendida dizia que não vendia produto de má qualidade. Dona C apareceu do fundo da barraca pegou a roupa, olhou o furo e com grande habilidade coseu o furo! Mais um caso resolvido!!! E duvido que Dona A volte de novo!!!

Do outro lado tinha leguminosas e tubérculos, pegou uma boa quantidade de batatas, era viciada nelas, iam bem com tudo, cozidas, fritas, assadas, com manteiga. Tereza chegou a salivar levemente...

Na banca da peixaria procurou uma suculenta merluza e sardinhas.

__Tereza faz tempo que não vejo você por aqui. Estava doente?

__Não Senhor Saldanha, muito atarefada, eu fui demitida e tive que me reinventar, estou tentando me lançar como pintora.

__Olha que maravilha heim!!! E porque não traz alguns quadros para vender aqui na feira???

__Puxa é uma ideia muito boa, vou amadurecer ela, talvez você me veja por aqui mais vezes

Tereza sacou uma nota de cem para fazer o pagamento

__Não tem trocados? O último cliente me levou todo o troco

__Infelizmente não, só me sobrou essa

Saldanha fez sina para ela aguardar um momento e foi na barraca do açougue tentar trocar a nota. Tereza sempre ficava fascinada com a beleza de e diversidade de uma feira livre. E as vezes também ficava triste imaginando se um dia aquilo tudo acabaria por culpa do ser humano que a cada dia degradava mais a natureza. Também lembrou que a feira era uma pequena porcentagem de toda riqueza existente no Planeta, e que por mais anos que vivesse não iria conhecer esta diversidade em sua totalidade.

__Acordaaaaaaaaaaa Tereza, aqui está seu troco (risos)

__Ah estava aqui pensativa, me desculpe

__Se forem pensamentos bons esta perdoada

Foi descendo a rua quase no final da feira, iria fechar como sempre com chave de ouro, comprando um pastel crocante e bem recheado de seu Tanaka

__Bom dia mocinha, que vai querer hoje?

__Deixa ver... Vou querer aquele especial de carne bem caprichado

__Bichado??? Não, não, Tanaka vende não bichado (risos)

__O Senhor sempre de bom humor heim

__Gente velha, bom humor, se não vida não vai

__É verdade! O Senhor está sozinho hoje

__Sim! Triste né... Dona Tanaka cama. Febre alta

__Nossa que triste!!! Pegou o vírus???

__Tanaka não sabe. Fez teste ainda não.

Tanaka afastou-se para pegar o pastel. Tereza se voltou para si mesma novamente... Lei do Mentalismo... Lei da Vibração...

__Lei da Correspondência...

__O que você disse???

__Aqui está seu pastel (risos)

__Não você disse, Lei da Correspondência

__Sim, papai falava muito Lei da Correspondência

__E o que significa?

__Que ninguém é melhor que ninguém. O que está em acima é como o que está abaixo, e assim por diante, e assim todos somos governados pela mesma Lei. Tanto animais como vegetais, E então ninguém é melhor que ninguém (mais risos)

Tereza ficou muda, precisava anotar aquilo, perguntou se Tanaka tinha caneta e papel e ele prontamente lhe atendeu. Rapidamente fez sua anotação

__E as outras???

__Quais outras???

__Leis!!!

__Tanaka não sabe, papai contava apenas esta

__E onde ele aprendeu

__De papai também

__Interessante...

Tereza terminou seu pastel, pagou e retornou para casa, já tinha agora três Leis, mais não tinha a menor ideia de onde encontrar as outras quatro. Ou será que elas é quem lhe encontrariam. Isso a deixava um pouco desconfortável.

sábado, 27 de março de 2021

O Décimo Terceiro Encontro

Chegando ao hospital local Tereza e Alberto se dirigiram a recepção e perguntaram a atendente sobre um paciente chamado Jesus. A atendente fez um ar de espanto por detrás de sua mascara e falou em uma voz abafada:

__Olha muito difícil achar uma pessoa apenas pelo nome. Mais veja bem este não é um nome qualquer.

Tereza anteviu um sorriso por detrás da mascara, e também sorriu por trás da sua.

__No entanto não tenho boas notícias, a doença dele evoluiu muito, pois já era reincidente, já “hospedamos” ele por aqui várias vezes, e cada vez em um quadro ainda mais pior. Ele veio a óbito hoje de madrugada.

Tereza tampou os olhos com as duas mãos e começou a chorar, Alberto lhe abraçou.

__Lamento pela perda de vocês, como ele não foi infectado, vocês podem ver o corpo, vela-lo e providenciar o sepultamento.

Tereza balançou a cabeça afirmativamente, virou-se para Alberto e falou:

__Preciso de um momento sozinha com ele

Alberto balançou a cabeça afirmativamente e disse:

__Vou tratando da parte burocrática do sepultamento

Tereza seguiu uma enfermeira que lhe encaminhou por um imenso corredor, no final dele tinha uma sala, onde a mesma lhe abriu a porta e ela entrou.

Seu amigo estava deitado com um lençol sobre o corpo, removeu o lençol. Suas feições estavam serenas, parecia ter um leve sorriso no rosto. Tereza notou também que estava bem limpo, devia ter tomado um banho, a barba também estava bem aparada e os cabelos arrumados. Tereza foi tomada por uma tristeza profunda e se perguntou por que seu amigo tinha que ter ido dessa forma, porque as pessoas queridas se iam, ele ainda era tão jovem e tão bom.

__Faça a pergunta, Faça a pergunta, Faça a pergunta. E agora quem irá me responder??? (se perceber Tereza gritou bem alto)

__Eu irei lhe responder???

Quando olhou para o lado... Um Calafrio!!! Era ela mesma... Mais de novo??? Estava sonhando???

__Ok, ok já estou me acostumando com isso, e sei que não estou louco. Mais... Porque a mãe não veio???

__Porque existem momento em que você deve estar consigo mesma e refletir sobre as coisas. Este é mais um aprendizado!!! Eu sou quem estará com você até o final dos seus dias, sou o enviado, sou seu anjo e sua consciência. Com você ainda existem mais dois, mais ainda não pode vê-lôs, pois seus olhos ainda estão obscuros procurando ainda várias respostas. Jesus morreu mais isso não é o fim, pois em cada fim há um recomeço, para se nascer é preciso antes morrer e assim adentrar em novo ciclo. O que Jesus disse foram palavras de amor e sabedoria, ele não viveu em vão, trouxe alento àqueles que compartilharam de seus dias, seu sofrimento e sua carga são de certa forma um exemplo, pois além dele são muitos os que sofrem anônimos, desamparados, solitários. A você cabe disseminar sua palavra e sua sabedoria.

Tereza em seu entendimento ficou confusa, de que Jesus estavam falando??? Mais guardou silêncio com relação a isso, no entanto uma dúvida lhe surgiu:

__Quem são os outros dois???

__Eu sou o sábio o que traz as respostas que você já sabe mais lhe estão bloqueadas, O outro é voraz o que trás a proteção e o terceiro é mediador, antes que um fato seja consumado ele avalia e pondera.

__E se os três falharem???

__Se os três falharem é porque você falhou!!! Sua Consciência te chama para o que é certo, O Guerreiro te protegerá seu você estiver certa e o Conciliador falará por ti dos seus agravos e porque atentar contra você.

__Entendo, e se... Eu estiver errada???

__Então sofrerá as Leis da Causa e Efeito

__Há recurso???

__Sempre há, em estâncias superiores.

__Entendi, devo chamar pela Mãe ou pelo Pai.

__Exato, eles sempre tem o coração eterno e olham para aqueles que erram e sabem que erraram.

__Mesmo se o erro for gravíssimo???

__Mesmo

__Estranho... Pois a erros que não tem retorno

__Correto, nada se retorna, se segue em frente. Mais mesmo quando uma árvore tomba sua sementes já foram plantadas antes. Existe um sistema alheio ao seu, onde as coisas já foram deliberadas, e antes de acontecerem no Mundo de Malkut elas já eram sabidas.

Tereza se arrepiou toda.

__Como pode isso??? Então se alguém for assassinar alguém isso já é de conhecimento???

__Correto, o coração do ser humano e seus intentos já são previamente conhecidos.

__Mais e o livre árbitro???

__Ele o teve, sempre terá. Mais já sabemos isso com muita antecedência. Para que se possam haver intervenções e demoverem o Ser desse ato tão bárbaro, que é tirar a vida de seu semelhante.

__E a pessoa que morreu inocente, que culpa a tem???

__Culpa nenhuma, pois o sistema é perfeito. Se realmente era seu momento, tanto faz a forma em que ela finalizou seu processo. Isso pode chocar quem esta de fora, mais o fim é sempre o fim não importa a forma. A pessoa poderia simplesmente tropeçar bater a cabeça e finalizar seus dias, isso é justo??? E lembrando sempre que cada fim é um começo. Nada se cessa em definitivo, essa é uma das Leis.

__Agora as coisas se tornam claras, mais você me fala de Leis que desconheço. Quais são elas?

__Sim, são sete ao todo, como sete são muitas coisas. Os números falam com você preste muito atenção neles.

__Quais são essas Leis e como as acho?

__Continue procurando...

__Tereza, você esta bem???

Quando olhou para o lado Alberto estava com uma feição assustada

__Você esta aqui há horas então vim a seu encontro. Você estava com olhar parado vagando e cochichando baixinho. Pensei que fosse uma oração a princípio, mais você esta ai há horas então me preocupei.

__Esta tudo bem Alberto, podemos ir.

__Ok, os preparativos já foram encaminhados e o enterro será à tarde. Eles deixaram isso comigo. Falaram que Jesus disse que era para dar para você, que você saberia o que fazer.

Alberto lhe passou uma sacola, Tereza olhou dentro e viu folhas e mais folhas, retirou uma e leu o título: As Leis da Alquimia. Sentiu uma fraqueza em suas pernas e se apoiou em Alberto. Ali listado estavam as Sete Leis: Mentalismo, Correspondência, Vibração, Polaridade, Ritmo, Genero, Causa e Efeito. Não havia nenhum detalhamento sobre elas, era como se fosse um norte a se seguir…

__Tereza você precisa comer algo, já faz muito tempo desde que lanchamos na praça.

Tereza concordou!!!

Naquela tarde fria e com uma garoa fria o corpo de Jesus descia ao solo em um simples caixão, como simples foi sua vida. Tereza acompanhou o processo e muita coisa passava em sua mente. Entendeu que Jesus era seu Mestre mesmo morto estando, e que seus escritos e sabedorias iriam lhe guiar em sua jornada de busca. Também lembrou se de outro Jesus, e de quanto tempo fazia que não lia a Bíblia. Tereza tomou consciência de que teria muita coisa para ler naquela pandemia que se arrastava


terça-feira, 22 de dezembro de 2020

O Décimo Segundo Encontro

A vida de Tereza seguia uma normalidade e fluidez incríveis, seu novo atelier montado no cômodo contíguo estava a pleno vapor, uma vez por semana fazia um pequeno quadro, coisas simples para apurar suas técnicas e treinar as aulas online, na qual havia se inscrito.

Lá fora o mundo andava meio louco com o surto de um vírus letal, pessoas morrendo, sobreviventes abalados usando máscaras para se protegerem, uma imensa desordem física e estrutural, no qual Tereza procurava manter sua normalidade, fazendo as coisas que mais gostava e economizando horrores para que o dinheiro que receberá do antigo emprego, mais economias que fizera durante os anos rende-se mais. Enfim, vivia seu novo sonho. E por falar em sonhos, como será que andava Jesus em meio àquela loucura toda?

Tereza se alto congelou e sua mente flui por vários pensamentos, pensou na possibilidade de ajudar Jesus e aproveitar todo o seu talento. Mais como? Pensou... pensou... Talvez alguém de fora. Talvez Dr. Alberto, quem sabe

Quando deu por si, estava com o telefone na mão, marcando uma nova consulta. No outro dia pela tarde (queria ser a última consulta do dia, para ter mais tempo com o Dr.) já estava na recepção do prédio. A recepcionista olhou fixamente para ela e deu um sorriso.

__Ah!!! Você voltou. Quase todas voltam. Porém você está bem diferente heim. Cá entre nós, eu também marquei uma consultinha lá com o Sr, Alberto. E adorei!!!

Novo sorriso da atendente, ela colocou o dedo indicador sobre os lábios, em sinal de silêncio. Seria o pequeno segredinho entre ela e a recepcionista. Ela lhe sorriu de volta retribuindo o mesmo sinal.

Ao chegar no consulto aguardou na sala de espera, em minutos o Dr. apareceu na porta do consultório e a fitou longamente.

__Tereza?

__Sim essa sou eu (risos)

__Pode entrar

Tereza se sentou na confortável cadeira de paciente, Alberto sentou-se na cadeira logo a frente, ainda a fitava.

__Curioso!!!

__Quem??? Eu???

__Sim, sim você teve uma bela transformação. Deve ter seguido minha receita (risos)

__Ao pé da letra (mais risos)

__Bom, então vamos lá. Me conte como tem encarado seus fantasmas, ainda mais em um momento destes que estamos vivendo?

__Na verdadeeeee...

__Sim?

Tereza piscou um olho

__Minha vinda aqui não é na verdade uma consulta

__Ahhhh, então de que se trata?

__Bom vamos ao começo! Eu não conheço muitas pessoas, sai do antigo emprego, estou tentando algo novo, pintura

__Olha, isso é uma coisa excelente!

__E me lembrei do Dr.

__Olha pode me chamar de Alberto

__Ah sim! Então pensei...

__Sim?

__Que o senhor deve conhecer um bocado de gente?

__Ah! Claro. E você gostaria que indicasse alguns, para você vender quadros. Acertei?

Tereza arregalou os olhos

__Não, não é nada disso (risos)

__Puxa errei feio então

__Não chegou nem perto

__Então vou encerrar minha carreira de adivinho e deixar você terminar

__Veja bem, você pode até achar estranho... Já faz um tempo, em nossa última consulta, quando sai daqui eu conheci um rapaz. Um morador de rua. Conversamos um pouco, levei ele para comer algo

__Que linda atitude!

__Ah sim, obrigada. Então este rapaz me mostrou uns textos e vi que ele tem um talento enorme para escrita, decidi ajuda-lo. Mais não sei por onde, não conheço ninguém deste círculo intelectual. Ai pensei... Sei lá... De repente o Dr... Quero dizer, você. Conheça alguém que possa fazer este encaminhamento e ajudar este rapaz?

__Puxa que incrível. Eu conheço sim, pelo menos duas pessoas

__Veja eu trouxe um texto dele que ficou comigo

Alberto pegou a folha da mão de Tereza e leu umas três vezes

__Realmente muito bom! Teria mais?

__Na verdade não

__Uma pena. E onde achamos este rapaz?

Tereza arregalou os olhos novamente!

__Nossa eu sou uma tola né? Vim aqui te incomodar em seu serviço, e nem sei onde localizar esta pessoa. Na última vez eu encontrei ele aqui na praça em frente ao prédio

__Perfeito, então vamos lá. Se for este o destino, o rapaz nos aguarda. E urge encontra-lo de imediato

Alberto arrumou o consultório, trancou a porta e desceram pelo elevador. Ao descerem no térreo Tereza enroscou seu braço no de Alberto, este lhe sorriu. Ao passarem pela recepção Tereza deu uma leve piscadela para a recepcionista, que lhe olhou atônita, mais logo lhe sorriu largamente.

Quando chegaram a praça Tereza foi direto ao banco onde havia encontrado ele pela primeira vez, mais sem sucesso, então resolveram fazer um pequeno passeio de reconhecimento e busca, mais depois de uma hora e meia não obtiveram sucesso algum. Alberto teve a ideia de se separarem eu perguntarem aos mendigos locais, Tereza atendeu prontamente a ideia dirigindo se para o lado direito enquanto Alberto seguiu para esquerda. Depois de mais de duas horas já haviam se encontrado novamente no ponto inicial se que nenhum dos dois tivesse obtido a mínima informação. Tereza se lamentou por ter esperado tanto tempo então sentaram se no banco, foi então que a barriga de Tereza roncou em alto som, ela corou

__Ok moçinha, já estamos andando a um bom tempo, então chegou a hora de abastecer

__Excelente ideia!

__Vamos comer no lugar mais chique desta praça. Eu te prometo

Aberto levantou-se tomou a mão de Tereza e deram três passos

__Pronto chegamos!

Tereza deu uma sonora gargalhada, estavam de frente a uma dessas dezenas de carrinhos de cachorro quente que ficavam espalhadas pela praça

__Ah!!! Isso sim é muitooooooooooo chique!!! Por favor quero um cachorro quente duplo e mais um refrigerante, por favor.

__Pois não mocinha, fique à vontade e sentem-se por favor enquanto vou preparando

O senhor do carrinho de lanches parecia um velhinho bem simpático, enquanto preparava os lanches cantarolava uma cantiga. Tereza teve um clique nesse momento

__Espere, espere. Senhor onde aprendeu essa música? Ela não é assim muito comum

__Verdade, você tem razão no que diz. Mais de tanto ouvir um mendigo cantarolando ela eu meio que peguei de cabeça. E não é que é uma bela melodia (um sorriso)

__E como se chama esse mendigo?

__É o Jesus. Ele é o mais pacato e calmo mendigo desta praça

Tereza não podia se conter em sua felicidade

__Olha estamos procurando ele a horas. Mais pelo que vi pouco o conhecem, e os que o conhecem não tem notícia alguma

__Sim é verdade praticamente ninguém sabe o que aconteceu com Jesus. A não ser uma pessoa

__E quem seria essa pessoa? (perguntou Alberto)

__Eu!

Tereza aflita disparou em seguida

__E onde ele está?

__Infelizmente, internado em hospital. Certa manhã quando cheguei para trabalhar notei que Jesus respirava com dificuldades, até pensei que tinha contraído esse vírus que se espalhou por todo canto. Mais ao leva-lo ao hospital, constataram que o pobre estava com começo de pneumonia, no entanto, nem se assustaram, por ser uma doença muito frequente nos moradores de rua. Noites e mais noites ao relento, períodos de inverno, mais cedo ou mais tarde isso iria acontecer. E vou fazer visita para ele a cada dois dias, se quiserem eu dou o endereço do Hospital e vocês podem ir lá diretamente ver como ele está.

O Senhor anotou o endereço e nome do Hospital em um guardanapo. Alberto pagou os lanches. Depois Tereza e seu amigo se dirigiram ao Hospital local

sexta-feira, 13 de novembro de 2020

O Décimo Primeiro Encontro

Tereza acordou de um sobressalto

Ainda esfregando o olho apanhou o celular e atendeu

Na verdade, não disse nada, seu coração batia aceleradamente por conta do pesadelo que tivera e ainda tentava absorvê-lo.

Do outro lado da linha uma respiração profunda!!!

Houve um tempo de um minuto em que nada, absolutamente nada acontecia, o mutismo de Tereza contrastava fortemente com a respiração do outro lado, e isso meio que pareceu uma eternidade, o que dava impressão de que ela estava entre um mundo real e o imaginário. Estaria realmente acordada??? Ou estava dentro de um sonho dentro de outro???

Finalmente a pessoa do outro lado da linha resolveu se manifestar

__Ah!!! É você!!!

Respondeu Tereza secamente, a pessoa do outro lado da linha falava atabalhoadamente

__Caríssimo, respira um pouco e fala pausadamente, pois não entendi absolutamente nada do que você falou. E outra, acabei de acordar agora, e não muito bem por sinal!!! Não prefere me ligar mais tarde

Mais conjecturas...

__Hum... Ok!!!

Do outro lado da linha a pessoa começou a chorar copiosamente aos soluços, Tereza pensou consigo mesma: Que tédio!!!

__Ok, ok também não é para tanto, não é??? O mundo não acabou!!!

A pessoa fala...

__Sei, sei. Eu entendo!!!

Mais soluços, mais explicações...

__Aham!!! Olha, vou lhe falar o que penso disso...

A pessoa lhe interrompe abruptamente

__Tá bom, tá bom. Te encontro no lugar marcado hoje à tarde, lá pelas 14 horas, pode ser???

A pessoa se senti aliviada, se despede, encerra a ligação

__Ah sim isso é realmente o fim da picada!!!

Tereza se levanta, esta nua, sua silhueta vaga pelo quarto escuro, parece estar perdida. Vai até a porta do quarto, retorna, pensa... Abre a gaveta da cômoda e separa umas roupas, escolhe um tênis descolado (ela anda pelo quarto na escuridão, sabe perfeitamente onde esta cada coisa como se tudo estivesse claro, é seu pequeno mundo!!! Desde de crianças Tereza tinha essa habilidade estranha, de memorizar onde está tudo, era como um jogo, e sua mãe brigava sempre com ela - Tereza pare com isso!!! Uma hora você vai cair, tropeçar em algo, bater com a cara na porta. Mais não isso nunca acontecera – agora ela sorria lembrando-se disso. Teve então uma ideia de ampliar essa habilidade pela casa toda (deu uma sonora gargalhada).

No chuveiro Tereza abriu ele e deixou a água lhe cair sobre a cabeça (gostava sempre de uma temperatura tórrida). Ali ela meditava várias coisas sobre sua existência e sobre o mundo, era como um mantra interno, se dava alguns minutos consigo mesma. Só depois pegava o shampoo e lavava seus cabelos por um bom tempo, eles eram logos e negros. Depois pegava o sabonete esfregava na esponja de banho e passava ela suavemente por sua pele, começava pelo pescoço, deslizando pelos braços tal como uma dança ela voltava pelo mesmo caminho e encontrava seus seios, tudo isso ao som de Mary Carey que saia de seu celular, e ela acompanhando o ritmo, olhos fechados, a esponja descendo seu ventre e indo encontrar suas particularidades mais profundas!!! Então ela finaliza o rito em suas longas pernas, um enxague final e desliga o chuveiro. O banheiro é puro vapor d’agua, vai até o espelho e escreve: ALQUIMIA!!!

Voltou ao quarto para se trocar, lembrou do sonho e fez um paralelo com a ligação que recebera. Seriam os sonhos um pressagio??? No sonho ela foi a um encontro em um lugar bizarro onde as coisas foram se desenrolando até um final fatídico. Suspirou profundamente e pensou: o que tiver que ser, será!!!

As horas realmente voaram, desde a manhã de hoje. Agora ela estava sentada na praça de alimentação do shopping comendo um salgado e tomando um café, aguardando aquela figura estranha que fora seu namorado, ele sempre tão pontual estava uma hora atrasado, chegou apressado, parecia que fugia de alguém, parecia mais gordo e abatido

Lhe deu um beijo na face e sentou-se na sua frente

__Desculpe o atraso viu, foi o transito

__Ah sim, sempre o transito (Tereza sorriu)

__Mais é verdade!!! Juro!!!

__Ok, não precisa jurar, eu acredito, mesmo porque se não for isso, não vai fazer a menor diferença

Tereza mantinha aquele sorriso, parecia que o feria profundamente, ele engoliu seco

__Bom eu não quis falar pelo telefone, mais a verdade é que queria lhe pedir desculpas pessoalmente, acho que devo isso a você

__Olha, você não me deve nadinha rs

__Devo sim!!! A você, as pessoas, ao mundo. Hoje vejo que nunca fui uma boa pessoa, pois estava sempre preocupando comigo mesmo. E obrigava os outros a serem como eu queira, e fazer o que eu queria

__Olha, só de você pensar assim já é uma grande evolução de sua pessoa...

__Tereza... Eu vou morrer!!!

Ela arregalou os olhos, ele pegou em suas mãos

__Cara deixa de besteiras...

__É verdade, o médico disse. Tenho um ano ou dois

Silêncio...

Olhares...

O mundo naquele instante se resumiu a eles dois, e aquele imenso e lotado parque de alimentações parecia estar vazio e extremamente silencioso

Tereza se levantou, deu a volta e lhe deu um forte abraço por trás. Aquele homem que ela conhecerá antes tinha ido embora realmente, uma pessoa grosseira e má, que ria das desgraças dos outros, que impunha até mesmo a roupa que ela devia vestir. Agora ali, diante dela estava um ser humano carente e se sentindo só. Ela se aproximou de seu ouvido e lhe disse baixinho:

__Eu te amo!!!

Sentiu o corpo dele estremecer todinho, achou até que ele iria se desmanchar naquele exato momento. Ele se levantou, ficaram frente a frente e se abraçaram por um longo tempo. Lagrimas correram pelos olhos de ambos

__Olha cara, só vou te dizer uma coisa. Nada é definitivo, pois o Pai sempre dará a palavra final. Lute, simplesmente lute apesar dos diagnósticos e estatísticas. Os médicos estão aí para isso, nos dar dados frios e exatos. Mais o amor do Pai vai muito além de números, pois ele é o dono de todos os números existentes.

Ele lhe sorriu de volta. Ela percebeu que conseguira atingir seu coração e conseguiu arrancar dele um sorriso sincero

__É verdade Tereza, como você é maravilhosa, eu não havia em momento algum pensado nesta possibilidade e você realmente me deu uma esperança que antes não tinha. Sim, eu vou me cuidar. Tanto por dentro, como por fora!!!

__Olha eu estou disponível para acompanhar você em consultas e sessões de tratamento

Ele balançou a cabeça afirmativamente e agradeceu. Naquele momento nascia um novo tipo de amor. Um amor que não era de um casal, que não era de homem e mulher, mais sim o amor entre dois seres humanos, entre duas almas, uma que estava em progresso e outra que despertara de sua própria escuridão


sexta-feira, 16 de outubro de 2020

O Décimo Encontro

Tereza tinha ido à uma velha construção abandonada que existia em sua rua para encontrar uma pessoa desconhecida que havia lhe enviado uma carta anônima que fora colocada por baixo da porta de sua casa. O texto era simples, dizia apenas, vá a este endereço pois tenho uma revelação a lhe fazer, assinado: alguém que lhe quer bem.

A casa era sinistra desde a fachada. O portão velho e todo enferrujado fez um estrondoso ruído assim que ela forçou ele para abri. Era um sobrado antigo da década de cinquenta. Existia uma história sinistra que contava que ali houveram vários assassinatos em série e por este motivo a casa não foi passada para frente, além de estar envolvida em vários processos entre herdeiros. 

Tereza adentrou o que antes era um lindo jardim, mais agora imperavam folhas secas, teias de aranha, árvores enormes, bizarras e ressequidas pelo tempo que impedia a luz do sol de adentrar naquele ambiente

Tereza desde de sua metamorfose não tinha mais sentido medo de nada nesta vida. No entanto aquele local lhe causa um sentimento negativo, tristeza, asco. Uma vontade imensa lhe invadiu de estar bem longe dali, no entanto sua curiosidade era maior. Olhou no entorno para ver se via alguém

Foi contornando a casa, até dar nos fundos e chegou até a antiga piscina, ouviu um choro de criança que vinha lá de dentro. Chegou na borda para dar uma olhada, mais nada viu, além de folhas secas e vários insetos. Dizia a lenda que o filho do último casal morador na casa tinha se afogado ali, era uma criança de apenas oito anos. Por um instante Tereza imagino a agonia da criança tentando sobreviver sobre o turbilhão de águas que lhe invadiam as entranhas junto com uma vontade enorme de poder gritar para que alguém viesse lhe salvar, no entanto, os pais estavam muito preocupados em saber qual investimento fariam para aumentarem seus ganhos na bolsa de valores...

Ali também existia uma churrasqueira de alvenaria, Tereza viu muita gente rindo alto, comendo e bebendo, homens e mulheres de roupa de banho...

Continuou contornando a casa pelo outro lado onde existia um corredor enorme ao que dava entender que ali era a entrada de carros da casa, pois no fundo, paralelo a piscina havia um amplo espaço do que antes era uma cobertura para carros, ainda estava ali um deles totalmente corroído pelo tempo, assim como seu último morado, que após o suicídio de sua esposa (pois não suportou a morte da criança) enlouqueceu e foi internado em um manicômio. Tereza pensou nesse momento em como a vida era frágil e as vezes dramática, pois apesar de toda aquela riqueza, aqueles que nessa imensa casa moraram não conseguiram ser felizes e usufruir de tudo aquilo que possuíam. Como pode isso, as vezes quem pouco tem, é tão feliz e vive-se uma vida tão plena!!!

Tereza acabou saindo novamente na frente da casa, e nada de encontrar viva alma, deveria entrar???

Fico ali parada olhando para o alto, aquela imensidão de casa. Lembrou também de filmes e séries de suspense que coisas desse tipo nunca acabavam bem. Afinal ela nem sabia que a havia arrastado aquele lugar. Tomou se de coragem e pressionou a porta de entrada, que rangeu como um gemido, seus pelos se irisaram e um arrepio tomou todo seu corpo

Deu de cara com a sala, era gigantesca e cheia de móveis comidas pelos cupins, de frente havia uma escada que estava deteriorada, o chão era de madeira e conforme ela pisava sobre ele, o mesmo ia fazendo estalos horríveis. Chegou a cozinha, alia uma grande pia e uma torneira que gotejava água, na parede um armário ainda guardava louças de porcelana no estilo Francês. No canto havia uma porta com um pequeno corredor, que ia dar no quarto da empregada (a mesma que encontrará o menino morto na piscina)

Tereza voltou a sala e ponderou se deveria subir as escadas. A casa era uma escuridão total, olhou no celular já eram quase seis horas, não seria uma boa ideia estar ali quando o breu da noite tomasse conta de tudo. Deu passos rápido e subiu a escada, tomou o rumo a direita, no fundo estava o quarto do casal, cortinas corroídas por traças, a cama tinha cedido uma perna estava torta, o guarda-roupas era embutido na parede com lindos detalhes de entalhes, no chão ainda estava lá um lindo tapete persa resistindo a tudo isso, quase impossível. Ela voltou do lado um quarto de hospedes com uma cama de solteiro e outra de casal, mais a frente perto da escada mais um quarto, também todo mobiliado, no entanto tinham tons femininos. Tereza avançou até o último quarto na direção oposta, estranhamente era o único que estava com a porta trancada, tentou forçar para ver se abria, quando nesse instante ouviu bater da sala. Seu coração saltou e acelerou abruptamente.

Voltou vagarosamente e olhou para baixo, conseguiu ver um homem enorme que estava com um casaco e um capuz sobre a cabeça (estranho pois era uma tarde muito quente). O homem colocou a mão na parte de trás da cintura e sacou uma arma

Tereza teve muito medo nessa hora, se arrependendo imensamente de estar ali naquele lugar, pegou o celular para pedir ajuda e viu que a carga da bateria estava por um fio e piscando, ou seja, tinha segundos para ligar para alguém. Mais seu pavor maior, for perceber que estava sem sinal nenhum

Começou a ouvir o som da pessoa subindo as escadas, então ela se arrastou para o outro lado, tentando não ser detectada e foi até o quarto do casal, abriu as janelas e botou o celular para fora. Enfim, deu sinal!!! Fez a ligação para um nove zero, a bateria acabando... e som dos toques da chamada lhe batendo ao ouvindo, tum, tum, tum

Tereza começou a chorar copiosamente, tum, tum, tum...

Olhou para o lado repentinamente...

Estava na sua cama...

Seu celular tocava, tum, tum, tum...